• Sabrina Miranda

#Formação de professores - É preciso continuar...

Sou professora no Mestrado Profissional em Ensino de Ciências da UEG. Esta atividade me proporciona ter contato com vários profissionais da área de Ciências que atuam na Educação Básica (nas diferentes esferas: municipal, estadual e federal) e buscam formação continuada. De antemão quero dizer que admiro muito estes colegas, pois eles enfrentam o desafio de fazer um mestrado, na maioria das vezes, sem licença para qualificação (um direito, hoje frequentemente negado). Assim, precisam conciliar as atividades acadêmicas com o trabalho na escola. Por mais que a temática do mestrado seja muito próxima do contexto profissional destes "discentes", de início eles sentem o impacto de retornar à academia após anos de conclusão da graduação.

O Mestrado exige muita leitura, pensar/refletir, definir uma boa pergunta de pesquisa, se envolver em um universo de publicações científicas em diferentes formatos, como artigos publicados em periódicos, teses, dissertações, eventos acadêmico-científicos, Plataforma Sucupira, Quais Capes Periódicos, enfim, no mestrado o "mind set " é muito trabalhado. Há nesta etapa a exigência de produzir conhecimento. Nossa! Este sim é o desafio...

Infelizmente, no nosso contexto cultural não fomos "treinados" para sermos produtores de conhecimento. Na escola, desde a Educação Infantil, somos, ainda hoje, treinados para reproduzir. Só é bom, ou seja, nota 10 aquele aluno que escreve na avaliação a resposta igualzinho está no livro. Valorizamos a reprodução, o famoso control C control V. Os trabalhos são copiados, e geralmente nem citações estes alunos fazem! Ops, isso é plágio! Enfim, não há espaço, ambiência, que valorize a formação de produtores de conhecimento. Criatividade, espírito empreendedor, curiosidade, estas características são muitas vezes sufocadas desde a Educação Básica.

Não fugimos à regra. Tivemos uma formação em nível básico neste modelo, reproduzindo o livro didático. Na Universidade, no contexto da formação inicial (graduação), também fomos pouco "solicitados" quanto a isso. Ah, se apertar demais os graduandos desistem... Já ouvi muito isso de gestores na Educação Superior. Os próprios estudantes, em alguns casos, apresentam esta postura "pouco ativa". Por isso "dói tanto" quando somos exigidos à tarefa de produzir conhecimento e ainda científico. No Mestrado Profissional em Ensino os pós-graduandos, além da dissertação, precisam produzir um produto educacional que seja aplicável no contexto da educação/ensino. Parece muito difícil, mas é tremendamente divertido quando se dispõe a tal "ação". Mas com certeza, como sempre digo, só funciona a base de muita auto-motivação e sob o lema "se o sonho é maior, as dificuldades são diminuídas".

Então vamos lá! Neste primeiro post vou destacar alguns elementos que precisam estar em nosso cotidiano quando entramos nesse universo acadêmico/profissional.

Todo bom trabalho acadêmico começa e termina com muita leitura. Leitura de bons textos, clássicos e atuais. Leitura de PDF's e livros físicos. A leitura traz a inspiração. As ideias e as inquietações surgem a partir de boas leituras (críticas/reflexivas). E na atualidade o desafio é selecionar bons materiais. O que selecionar quando a busca traz milhões de resultados? Este é um excelente questionamento.

Pois bem, eu sou dos anos 80, frequentei bibliotecas para ter acesso aos livros (aliás adoro bibliotecas, livrarias, papelarias, museus...), tirei cópias, solicitei aos curadores o envio de partes de obras de difícil acesso ou aquisição. Hoje não mais temos estas dificuldades. Com o advento da internet e a ampla disponibilização de dados, o desafio é estar "atualizado". Neste contexto, nós professores passamos a ter o papel de "curador do conhecimento", aquele que seleciona e indica bons materiais, bases confiáveis, boas leituras... Para tanto, temos que ter uma base teórica sólida, em constante atualização, com domínio de conhecimento. E é importante destacar que não preciso saber tudo, mas preciso saber onde buscar e como selecionar.

Sou professora no Ensino Superior e estudo muito para preparar minhas aulas. A ironia reside no fato que os próprios graduandos, muitas vezes, se espantam com isso. Como assim!? Deveriam se espantar no contrário.

Atuo nas áreas de Botânica e Ecologia Vegetal, além de Ensino de Ciências/Formação de Professores, onde o conhecimento é constantemente atualizado por pesquisadores de renome no Brasil e no Mundo que são muito produtivos, e temos que acompanhar tudo isso para discutir em sala de aula. Então, tem SIM que fazer parte da rotina dos professores o planejamento e a atualização dos conteúdos, estes sustentados em leitura de livros "referência" nas diferentes áreas com novas edições e artigos científicos publicados em bons periódicos. Contudo, o Brasil sempre vai na contramão do que é essencial/básico para um ensino de qualidade.

Para muitos gestores remunerar as atividades de planejamento é perda de "dinheiro". Eu gasto em média quatro vezes o tempo da aula para planejá-la. Agora, se a filosofia for reproduzir o que estava em um livro do início do século, aí sim, tudo bem, não há necessidade de se ter planejamento. Contudo vale ressaltar, valorizo o planejamento e ele deve fazer parte de nossas atividades remuneradas.

Na Escola os professores também precisam fazer tal atividade e serem bem remunerados para isso. A Escola e a Universidade são, por essência, espaços do Pensar. Para pensar precisamos de tempo. Pensar a melhor forma de abordagem de determinado conteúdo em cada turma (apesar de ser o mesmo conteúdo, não posso ministrar a mesma aula, com a mesma abordagem em diferentes turmas), ou seja buscar formas de personalizar o ensino, exige tempo, leituras e planejamento. Por tal "ideal" muitos pensadores da Educação afirmam que a Escola e a sala de aula são espaços de pesquisa. O professor pode ser pesquisador de sua prática. Mas, só funciona com o tempo destinado ao planejamento. Precisamos lutar por esse direito, buscar e resgatar este papel do professor, de pesquisador.

Nos envolvem em tantas burocracias pouco produtivas que nos tiram o valioso tempo do pensar. Reuniões são chatas, pois naquele "espaço" não são pensadas e discutidas coletivamente soluções que visem melhorar o processo de ensino-aprendizagem. Ficamos horas enfurnados para ouvir algo que vem pronto e seremos meros executores. Nossa, que ótimo! Já está tudo pronto, é só executar! Será!?

Por fim, professores, colegas, vamos nos atentar para a importância da formação continuada. Vamos estabelecer a ponte entre Universidade e Escola. Nos atualizar e valorizar nossa ação, que vai além de "segurar alunos dentro da sala de aula" e de "meros executores burocratas". Perpassa pela formação de cidadãos críticos, reflexivos e ativos.

Parafraseando Mario Sergio Cortella "É tempo para o Pensar".


Sabrina do Couto de Miranda (loveplantscerrado)








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