Cerrado

No contexto mundial o Cerrado é uma savana tropical úmida. O status de savana se refere ao predomínio de formações vegetacionais com aspecto savânico, ou seja, presença de estrato herbáceo contínuo e estrato arbóreo descontínuo.

Normalmente os livros didáticos, aqui utilizados, comentam apenas sobre as savanas africanas, mas as savanas tropicais podem ser encontradas também na América do Sul (Brasil, Bolívia e Venezuela), Austrália e Índia. Portanto, as áreas de savanas cobrem cerca de 30% dos trópicos.

As paisagens do Cerrado apresentam-se em mosaicos vegetacionais onde são encontradas formações que podem ser caracterizadas como campestres, pois apresentam predominância de espécies herbáceas e graminosas (foto superior direita); savânicas, com estrato subarbustivo-herbáceo expressivo e presença de árvores de pequeno porte, tortuosas e irregularmente ramificadas (foto lado direito); e formações florestais, que apresentam predomínio do estrato arbóreo com dossel fechado (foto abaixo). Estas últimas podem estar ou não associadas aos cursos d'água.

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Em nossas pesquisas utilizamos a classificação das paisagens do Cerrado descrita por José Felipe Ribeiro e Bruno Walter (pesquisadores da Embrapa cuja publicação mais recente sobre esta temática é de 2008). Esta classificação se mostra bem adequada para caracterizar as diferentes fitofisionomias (feições da vegetação) que encontramos no Cerrado, principalmente aqui na região core (central) do Bioma. Para estes autores, no Cerrado podemos encontrar 11 fitofisionomias distintas, a saber: campo limpo, campo sujo, campo rupestre (formações campestres); cerrado sentido restrito (cerrado denso, ralo, típico e rupestre), parque de cerrado (campo de murundus), vereda e palmeiral (formações savânicas); cerradão, mata seca, mata de galeria e mata ciliar (formações florestais).

A heterogeneidade espacial no Cerrado é expressiva, em poucos metros encontramos variação nos tipos fitofisionômicos ocorrentes. É muito comum encontrarmos na paisagem um campo limpo ou campo sujo seguido por uma vereda ou ainda uma mata de galeria no fundo do vale.

Esta variação, ou seja, esta heterogeneidade é típica do Cerrado!

Para a flora do Cerrado já estão descritas na literatura 11.627 espécies de plantas vasculares nativas e comparando estes dados com os publicados na Flora do Brasil (2010), o Cerrado abriga 35,9% da riqueza de plantas vasculares do nosso país. Isso mesmo! O Cerrado é a savana mais biodiversa do mundo.

Para o componente arbóreo (árvores e arvoretas) foram descritas cerca de 1.500 espécies. Muitas destas são de usos múltiplos, ou seja, podem ser utilizadas pelo homem com mais de uma finalidade, e de preferência com usos sustentáveis, além do madeireiro. Várias são frutíferas que ofertam alimentos tanto para a fauna, quanto para o homem, são empregadas na medicina tradicional, são apícolas (as abelhas constroem colmeias), melíferas (as abelhas retiram recursos para produção de mel), corticeiras, aromáticas, taníferas e ornamentais. Como exemplos podemos citar: o Pequi (Caryocar brasiliense Cambess. - foto Flor com Polinizador/Abelha) fruto muito apreciada na região Centro-Oeste, principalmente pelos goianos; a Mama-cadela (Brosimum gaudichaudii Trécul - foto Frutos imaturos verdes e Maduros Alaranjados) espécie frutífera empregada na medicina popular; e a Pimenta-de-Macaco (Xylopia aromatica (Lam.) Mart. - foto Flor com Pétalas de cor branca na parte interna) espécie aromática cujas sementes torradas são utilizadas na culinária como condimento.

As árvores são plantas terrestres estruturalmente complexas e, do ponto de vista ecológico, apresentam grande importância conectando dois sistemas: o solo e a atmosfera. As raízes das árvores, com seus diferentes comprimentos, exploram o solo desde a camada superficial (menos de 1 m) até camadas mais profundas buscando água, diferentes nutrientes minerais, bem como, o estabelecimento de relações simbióticas com fungos (micorrizas) e bactérias.

A parte aérea da árvore composta pela copa apresenta uma arquitetura diferenciada que interage com a luz, temperatura, precipitação, ventos, animais, microrganismos e também com outras plantas. Variações na forma, tamanho e presença de outras estruturas nas folhas, por exemplo, são reflexos dessas interações. Além disso, a parte aérea das árvores ofertam sombra, alimentos e local para abrigo de animais, servem para o pouso e nidificação das aves.

Outro aspecto interessante relacionado às árvores é que elas exercem importante papel no ciclo da água e no ciclo do carbono (ver tópico "Plantas & Ciclo do Carbono) . No caso do ciclo da água, podemos destacar que o solo associado às raízes das plantas são mais porosos , aerado, facilitando a infiltração de água das chuvas reabastecendo assim os reservatórios subterrâneos. Ainda, a maior parte da água que as árvores retira do solo é devolvida à atmosfera na forma de vapor por meio da evapotranspiração das plantas, contribuindo para a regulação do clima.

Já com relação ao ciclo do carbono, as árvores possuem expressivo crescimento secundário e alta fixação de carbono na biomassa. Assim, as plantas vivas continuamente sequestram o carbono da atmosfera e o armazenam na matéria orgânica (biomassa). O crescimento da planta é um balanço entre o que é assimilado via fotossíntese e o que é perdido/gasto via respiração.

As plantas exibem em sua morfologia características selecionadas ao longo de milhões de anos de interação com os fatores abióticos e bióticos. No caso das árvores do cerrado, encontramos adaptações morfofisiológicas à seca e ao fogo. O fogo é um fenômeno natural com o qual a vegetação do Cerrado co-existe mesmo antes da presença do Homem nesta região. Assim, é comum observarmos que algumas espécies são caducifólias ou decíduas, perdem as folhas durante a estação seca; várias espécies apresentam folhas grossas e pilosas (com pêlos ou tricomas); ramos e gemas cobertos por pêlos, e troncos com cascas espessas (grossas, cortiçosas). Contudo, é importante mencionar que as plantas nativas são adaptadas e resistentes ao fogo natural, aquele que ocorre em baixa frequência (de quatro em quatro anos, aproximadamente), já o fogo antrópico (causado pelo Homem) tem alta intensidade e geralmente frequência anual, o que é extremamente danoso/prejudicial às plantas.

As plantas são seres vivos muito interessantes. Conservar a biodiversidade é possibilitar a manutenção de nossa própria existência neste planeta. Dentre os serviços ambientais ofertados pela vegetação, dos quais nos beneficiamos diretamente, podemos citar: regulação do clima (temperatura e precipitação), manutenção das populações de polinizadores (benéficos aos sistemas agrícolas), conservação do solo, conservação de nascentes, ciclagem de nutrientes (devolução de nutrientes ao solo), entre tantos outros.

As plantas trazem consigo uma história evolutiva muito complexa e mais antiga que a nossa. Respeita-las e conservá-las é fundamental.

FITOFISIONOMIAS DO BIOMA CERRADO:

FORMAÇÕES FLORESTAIS

As formações florestais do Cerrado apresentam, predominantemente, presença de árvores de maior porte em sua composição. As copas dessas árvores se encontram formando dossel contínuo, o que provoca o sombreamento do solo. Assim, o interior das formações florestais apresenta pouca luminosidade e alta umidade.

As formações florestais podem estar associadas aos cursos d'água ou não. Começaremos falando das Matas de Galeria e Matas Ciliares, vegetações que acompanham os córregos e/ou rios, ou ainda estão associadas às nascentes.

As matas de galeria, como o nome diz, formam verdadeiras galerias sobre os pequenos corpos d'água, as nascentes ou córregos. As copas das árvores que ocupam os dois lados das margens se tocam formando as galerias (ver fotos à direita).

As matas ciliares, por sua vez, estão associadas aos cursos d'água de maior porte (rios de médio e grande porte), assim as copas das árvores localizadas em cada uma das margens do rio não se tocam e seguem margeando o rio, como os cílios nos olhos abertos. Diferenciam-se das matas de galeria por serem mais estreitas, apresentam diferentes níveis de deciduidade ou caducifolia, e a composição florística também é diferente (ver foto abaixo).

No contexto das formações florestais não associadas aos cursos d'água temos as matas secas e os cerradões.

As matas secas apresentam diferentes níveis de deciduidade durante o período seco, podendo ser consideradas com predomínio de espécies sempre-verdes, semidecíduas ou decíduas. Geralmente, ocorrem em solos mesotróficos, ou seja, solos mais férteis e profundos. A altura das árvores varia de 15m a 25m e a cobertura arbórea no período chuvoso varia de 70% a 95%. As matas secas também podem ocorrer sobre afloramentos calcários, nestes casos apresentam uma distinta composição florística (ver fotos abaixo).

O cerradão  é considerado uma formação florestal que traz em sua composição espécies savânicas (que possuem características esclerófilas, ver foto ao lado), daí o nome "cerrado alto/grande". Apresenta dossel com cobertura entre 50% e 90%, e altura das árvores entre 8m e 15m (ver foto abaixo, lado esquerdo). O não fechamento completo do dossel possibilita a entrada de luz no interior da formação florestal e o crescimento do estrato herbáceo diferenciado (ver foto abaixo do lado direito). Algumas espécies são utilizadas como indicadoras de cerradão, a saber:  Qualea grandiflora, Q. parviflora, Q. multiflora (conhecidas como Pau-Terra), Copaifera langsdorffii (Copaíba), Emmotum nitens (Sôbre), Cordiera macrophylla, Tachigali subvelutina (=Sclerolobium paniculatum) (Pau-Bosta), Simarouba versicolor, Platypodium elegans, Bowdichia virgilioides (Sucupira-Preta), Xylopia aromatica (Pimenta de Macaco), Machaerium acutifolium, Myrcia rostrata, Astronium fraxinifolium (Gonçalo Alves) e Aspidosperma tomentosum (Guatambu)

FITOFISIONOMIAS DO BIOMA CERRADO:

FORMAÇÕES SAVÂNICAS

As formações savânicas se caracterizam pela presença de estrato herbáceo entremeado por estrato arbóreo. Dentre as formações savânicas temos o cerrado sentido restrito, o parque de cerrado (campo de murundus), o palmeiral e a vereda. Das quatro fitofisionomias, abordaremos aqui as duas mais facilmente encontradas nas paisagens do Cerrado, ou seja, o cerrado sentido restrito (ou cerrado sensu stricto) e a vereda.

O cerrado sentido restrito se caracteriza pela presença de árvores de pequeno porte (predomínio de espécies com altura ente 2,0 e 3,0 m, e altura média < 4 metros), geralmente retorcidas e irregularmente ramificadas. As espécies arbóreas possuem adaptações para sobrevivência à seca e ao fogo (folhas grossas, cascas grossas/cortiçosas, gemas protegidas por pêlos ou escamas). O cerrado sentido restrito pode ser subdividido em cerrado denso (foto do lado esquerdo), típico (foto inferior lado esquerdo), ralo (foto logo abaixo) e rupestre (fotos na porção inferior). Estes se diferenciam pela densidade de indivíduos lenhosos (maior no cerrado denso) ou ambiente onde se encontram.

As veredas são caracterizadas pela exuberante presença da palmeira Buriti (Mauritia flexuosa) e normalmente estão circundadas por campos úmidos típicos. Geralmente estão associadas aos vales onde há afloramentos do lençol freático e permanente lâmina de água no solo. Os buritis adultos possuem altura média entre 12m e 15m.

As veredas, do ponto de vista ecológico, são extremamente importantes, pois fornecem fontes de água e alimento, bem como, locais para abrigo da fauna (ver foto do lado direito).

FITOFISIONOMIAS DO BIOMA CERRADO:

FORMAÇÕES CAMPESTRES

As formações campestres se caracterizam pelo predomínio do estrato herbáceo. São áreas abertas, com alta circulação de ventos e intensa incidência de luminosidade e calor (ver foto lado esquerdo inferior). Os campos nativos possuem alta diversidade de espécies de diferentes famílias botânicas: Gramíneas, Cyperáceas, Bromeliáceas, Orchidáceas, Iridáceas, entre outras. Apesar de olharmos para a paisagem e termos a falsa impressão que estamos enxergando apenas capins!

É importante ressaltar que os campos nativos não devem ser confundidos com áreas de pastagens plantadas, que possuem a presença de gramíneas africanas (exóticas) como as Braquiárias, por exemplo.

As formações campestres podem ser classificadas como campo limpo (áreas abertas sem a presença de arbustos), campo sujo (áreas campestres com a presença de arbustos) e campo rupestre (áreas campestres associadas aos afloramentos rochosos).

Os campos rupestres geralmente são encontrados nos topos de serras ou montanhas, sendo comuns em Minas Gerais devido ao relevo movimentado.

 

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